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quarta-feira, maio 28, 2008

Já nem me lembro!

foto da Joana, aqui

Um dia, o meu ginecologista e obstetra há mais de trinta anos, anunciou-me que se ia retirar de vez do serviço e encerrar o consultório. Fiquei ali, incrédula, meio perdida, sem rumo. E agora, para onde iria eu, garantir que tudo continuaria ' em bom estado de funcionamento'?... Naquela hora até me pareceu que ele era único no mundo. Pelo menos no meu mundo, era.
Meu Deus, o homem nem sempre fez as coisas à minha vontade: não apoiou um projecto de terceiro filho apresentando argumentos falíveis mas, apesar de tudo, convincentes; falhou o parto da segunda filha porque foi para uma formação duradoira e longínqua e fez-se subtituir por um colega... mas é um homem fantástico, sincero, humano, acolhedor, competente, disponível... Foi com a ajuda dele que fui mãe pela primeira vez, no Dia da Mulher. Foi ele que me garantiu que ela era linda quando a olhei pela primeira vez e a achei um recém-nascido feiinho... e era ele que estava certo.
Poucos meses depois encontrei-o, jovial e descontraído e, ao conversarmos sobre a sua nova etapa de vida disse-me, com uma convicção que ainda hoje me espanta: 'Já nem me lembro que fui médico!'.
Hoje vieram-me à ideia essas palavras dele porque comuniquei ao meu grupo de colegas que tomei a decisão de terminar a minha carreira de professora.
E fiquei a pensar: será que me vai acontecer como àquele meu médico? Uns meses depois já nem me lembrarei de algum dia ter sido professora? Será isso possível na carreira dele? E na minha?

Em breve saberei...


terça-feira, março 18, 2008

Ainda a avaliação de professores

Domingo, 9 de Março de 2008, no Público


António Barreto: a farsa da avaliação de professores

Na impossibilidade humana de "gerir" milhares de escolas e centenas de milhares de professores, os esclarecidos especialistas construíram uma teoria "científica" e um método "objectivo" com a finalidade de medir desempenhos e apurar a qualidade dos profissionais. Daí os patéticos esquemas, gráficos e grelhas com os quais se pretende humilhar, controlar, medir, poupar recursos, ocupar os professores e tornar a vida de toda a gente num inferno. O que na verdade se passa é que este sistema implica a abdicação de princípios fundamentais, como sejam os da autoridade da direcção, a responsabilidade do director e dos dirigentes e a autonomia da escola. O sistema de avaliação é a dissolução da autoridade e da hierarquia, assim como um obstáculo ao trabalho em equipa e ao diálogo entre profissionais. É um programa de desumanização da escola e da profissão docente. Este sistema burocrático é incapaz de avaliar a qualidade das pessoas e de perceber o que os professores realmente fazem. É uma cortina de fumo atrás da qual se escondem burocratas e covardes, incapazes de criticar e elogiar cara a cara um profissional. Este sistema, copiado de outros países e recriado nas alfurjas do ministério, é mais um sinal de crise da educação.

segunda-feira, março 10, 2008

Hoje é segunda-feira,Senhora Ministra

E, daqui a umas horas, depois de ter tentado descansar um pouco e vencido esta insónia que me vem atormentando ultimamente, irei trabalhar na minha escola, como venho fazendo há quase 37 anos. Darei as minhas aulas e substituirei, além disso, uma colega que recupera de uma cirurgia. Passarei ainda uma hora na sala de directores de turma, preparando a próxima avaliação das minhas turmas. O resto... e que resto, senhora Ministra, farei em casa, enquanto a família dispensar a minha presença.
Se me aposentar este ano, porque me falta a idade que a senhora e o seu governo determinaram, terei uma penalização tão significativa que dificilmente farei face às despesas de saúde nos próximos anos, se a morte não me levar entretanto, como vai levando tantos dos meus colegas antes de tempo, para alívio de vossas excelências (menos uma!).
Eu irei trabalhar daqui a pouco mas, sinceramente, senhora Ministra, a senhora podia ir descansar, que bem merece! Olhe que má cara a senhora tem! Só pode ser do excesso de trabalho...

Uma carta que vale a pena divulgar

Data: 26.02.08

Caríssimas colegas
Caríssimos colegas

Antes de mais, os meus mais sinceros parabéns pela organizacão do vosso movimento. Já há bastante tempo que temia ver os professores em Portugal e os professores portugueses no estrangeiro perto de cair num marasmo inoperacional relativamente às prepotências, injustiças,ilegalidades, indecências, etc,etc,etc, do nosso Ministério da Educação. Estou satisfeitíssima por ver que tal não é verdade, pelo menos no que respeita aos docentes em Portugal.
Os professores portugueses no estrangeiro encontram-se, a meu ver, ainda num estado de inacção que me custa compreender, apesar de desde 1998 terem sido penalizados de todos os modos possíveis pelo ME, a título de uma falaciosa e irreal "poupança".

Sou, desde 1982, professora de Língua e Cultura Portuguesas no Estrangeiro, e pertenço ao QND da Escola B 2,3 Mestre Domingos Saraiva no Algueirão.
Tenho sido sempre activa sindicalmente,encontrando-me no momento na Direcção do SPCL (Sindicato dos Professores nas Comunidades Lusíadas).

Conheço bem os sistemas de ensino da Alemanha e da Suíça, os dois países em que trabalhei longos anos.

Por isso, envio-vos aqui várias informações sobre os docentes e o ensino nos dois países, informações estas que poderão usar do modo que vos for mais útil, e onde poderão ver que os professores mais explorados da Europa, são, sem sombra de dúvida, os docentes portugueses.

Alemanha

Avaliação dos docentes:

Têm, de 6 em 6 anos, uma aula ( 45 minutos) assistida pelo chefe da Direcção escolar. Essa assistência tem como objectivo a subida de escalão.


Depois de atingido o topo da carreira, acabaram-se as assistências e não existe mais nenhuma avaliação.


Não existe nada semelhante ao nosso professor titular. Sempre gostava de saber onde foi o ME buscar tal ideia. Existem, claro, quadros de escola.


Não existe diferença entre horas lectivas e não lectivas. Os horários completos variam entre 25 e 28 horas semanais.


As reuniões para efeito de avaliação dos alunos têm lugar durante o tempo de funcionamento escolar normal,nunca durante o período de férias. Sempre achei um pouco preverso os meninos irem de férias e os professores ficarem a fazer reuniões…


Tanto na Alemanha como na Suíça, França e Luxemburgo, durante os períodos de férias as escolas encontram-se encerradas! Encerradas para todos, alunos, pais, professores e pessoal de Secretaria! Os alunos e os professores têm exactamente o mesmo tempo de férias. Não existe essa dicotomia idiota entre interrupções lectivas, férias, etc.


As escolas não são centros de recreio nem servem para "guardar" os alunos enquanto os pais estão a trabalhar.


Nas escolas de Ensino Primário as aulas vão das 8.00 às 13 ou 14 horas.

Nos outros níveis começam às 8 .00 ou 8.30 e terminam às 16.00 ou, a partir do 10° ano,às 17.00.



Total de dias de férias por ano lectivo : cerca de 80 ( pode haver ligeiras diferenças de estado para estado)

Alunos

Claro que existem problemas de disciplina. Mas é inaudito os alunos , ou os pais dos mesmos, agredirem os professores. A agressão física de um professor por um aluno pode levar à expulsão do último.

Os trabalhos de casa existem e são para serem feitos. Absolutamente inconcebível que um encarregado de educação declare que o seu filho/filha não tem nada que fazer trabalhos de casa, como acontece, ao que sei, em Portugal.

É terminantemente proibido os alunos terem os telemóveis ligados e utilizarem-nos durante as aulas. As penas para tal são primeiro aviso aos pais, depois confiscação do telemóvel e por fim multa.

Suíça

Tal como na Alemanha, os professores só são assistidos durante o período de formação e para subida de escalão.

Durante os períodos de férias as escolas encontram-se, como na Alemanha, encerradas.


Os horários escolares são semelhantes aos da Alemanha. Até ao 4° ano de escolaridade, inclusive, não há aulas de tarde às quartas-feiras, terminam cerca das 11.30.

No início das aulas os alunos cumprimentam o professor apertando-lhe a mão e despedem-se do mesmo modo. Claro que não há 28 ou 30 alunos numa classe, mas no máximo 22.


O telemóvel tem de estar desligado durante as aulas.

É dada grande importância aos trabalhos de casa. A não apresentação dos mesmos implica descida de nota final.


Total de dias de férias : cerca de 72 ( pode haver diferenças de cantão para cantão) .

Vencimentos

Só uma pequena comparação … na Suíça um professor do pré- primário no topo da carreira recebe 5.200 francos mensais líquidos ( cerca de 3.400 euros),mais ou menos o dobro do que vence um professor em Portugal no topo da carreira…..


(...)
Um grande abraço para todas /todos da colega

Teresa Soares


"Não é porque as coisas são difíceis que não nos arriscamos, é por não nos arriscarmos que as coisas são difíceis"

quinta-feira, março 06, 2008

Pergunta de José Gil

Porquê tanto ódio, tanto desprezo, tanto ressentimento contra a figura do professor?!...»


«Um sector gritante de extracção de mais valias de biopoder é o da Educação. Pela natureza do trabalho do professor (material e imaterial), é sempre possível fazer crer em que «modernizar» é igual a «gerir bem» igual a «ensinar bem». O que permite retirar o máximo da «modernização em mais valias materiais e imateriais.
Por exemplo, a avaliação dos professores deve ser feita, mas os parâmetros impossíveis impostos pelo ministério, as aberrações nas exigências da assiduidade dos docentes, a quase impossibilidade de obter a nota máxima, as dificuldades extremas em subir na carreira, os estatuto dos avaliadores incompetentes na matéria avaliada, etc. - estão a empurrar os professores para o abandono da profissão e para a reforma antecipada. A Educação sofre um massacre que provoca a fuga dos professores: não é isto um dos objectivos da «contenção», a redução do número dos docentes e dos custos da educação? A racionalidade necessária da avaliação esconde a outra racionalidade imposta pelo défice.
Nisto tudo, uma questão me intriga: porquê tanto ódio, tanto desprezo, tanto ressentimento contra a figura do professor?»


José Gil

domingo, dezembro 02, 2007

Dias melhores virão!

Entrei para a carreira docente cheia de expectativas, entre elas a de que, completados 36 anos de serviço, poderia enfim ter direito a uma merecida reforma, cumprida a carreira contributiva prevista na lei.
Mas eis que já se completaram os tais 36 e a nova lei impõe-me mais 5 anos para ter direito á dita reforma ou, mais precisamente, a uma percentagem dela.
Eu adoro a minha carreira, gosto do contacto diário com os meus alunos e com os meus colegas, o Liceu do Funchal é mesmo a minha segunda casa, como muitos me dizem... mas a verdade é que as forças já me faltam, a vista está cansada, as costas doem, as escadas da escola parecem-me mais difíceis de subir, os corredores parecem-me mais longos de percorrer, os 90 minutos de cada aula custam a passar sem uma pausa, as aulas demoram mais tempo a preparar, os trabalhos são mais difíceis de corrigir...
Daria de bom grado o meu lugar a uma jovem professora e iria alegremente dedicar mais tempo aos meus netos e ao meu voluntariado. Talvez ainda iniciasse algum projecto novo...
Ah, já sei que me poderei ir embora para casa daqui a menos tempo, levando um bom corte no vencimento, a tão falada penalização, mas a tal não sei se me atrevo pois sei muito bem que o que ganhar em breve mal me chegará para as despesas de saúde e para um fim de vida digno e tranquilo.
Dias melhores virão. Virão?