quarta-feira, fevereiro 28, 2007

Linguagem afetiva dos cães

Quando vou, à noite, para o meu trabalho na escola, encontro sempre um cachorro preto, grande, lá pelo jardim. Um noctívago, como eu... Falava sempre com ele, como com todos os cães que encontro, e nada...ele só me olhava receoso e tímido e distanciava-se, de cauda caída. Há dias estava lá também uma cadela de pêlo claro, dócil, grande também, de formas redondas e sinais de muitas maternidades. Estava a fazer-lhe festas quando veio até mim o cão preto e, de cauda a abanar, em sinal de contentamento como nunca o vira, lambeu-me a mão que afagava a companheira. Tive a sensação que me agradecia o gesto de carinho àquela que é, de certo, a mãe dos seus filhos...
Fiquei a pensar que há humanos que não sabem, tão bem como eles, manifestar afetos.

domingo, fevereiro 25, 2007

A minha Mãe

Se a saúde lhe tivesse dado oportunidade de viver para além dos 85 anos, teria hoje festejado 91. Educada por um pai rigoroso e exigente, ausente e egoísta e pelas religiosas de um colégio interno que recordava sem saudade, era uma mulher determinada, generosa mas pouco dada a manifestações de afecto. Em muitos aspectos moderna para a sua época, capaz de fazer ouvir a sua voz sempre que tinha razão e até mesmo quando a não tinha, a si própria se descrevia como tendo forte personalidade e quis dar provas dela toda a vida. Dizia-se "muito franca", mas essa que considerava qualidade não soube gerir muito bem. Alguns excessos de "franqueza" granjearam-lhe dissabores.
Amou um único homem com tal dedicação que contrariou tudo e todos quando o escolheu para sempre. Tratou dele com desvelo quando, jovem ainda, adoeceu gravemente e ele, o meu pai, retribuiu-lhe outro tanto ou em duplicado o amor e a devoção. Sempre se assumiu como sua parceira profissional, recusando o estatuto de simples professora no colégio que fez questão de dirigir " em sociedade" com ele. Em todas as tarefas e decisões inerentes à direcção do colégio participou activamente, fazendo em casa divisão das lides domésticas também por igual. Numa época em que tal era raro.
Em política e religião tinha ideias progressistas e opiniões desassombradas. Era excelente dona de casa, óptima cozinheira e de um bom gosto intuitivo. Lia muito, redigia com grande facilidade, tinha bom ouvido.
Pequena em tamanho, tinha um "génio" maior do que ela própria. Foi uma pequena grande mulher.

terça-feira, fevereiro 20, 2007

Despertar... ou não


Mário Quintana disse que
despertador é bom para a gente se virar para o outro lado e dormir de novo. Foi o que fiz hoje. Agora só vou despertar quando já tiver passado, lá fora, a euforia carnavalesca.

domingo, fevereiro 18, 2007

O Livro dos Gatos

Este pequeno livro é, para mim, uma preciosidade. Adquiri-o em 1995, quando leccionava a cadeira de Técnicas de Tradução de Inglês, hoje lamentavelmente retirada do curriculum do ensino secundário. Tratava-de de uma disciplina que permitia aos alunos, e aos professores, uma visão comparativa das duas línguas, aprofundando o conhecimento de ambas, desenvolvendo uma sensibilidade às características específicas de cada uma.

Na edicão da 'Caravela' é salientado o facto de o texto apresentado constituir " uma reescrita de uma leitura do Old Possum's Book of Pratical Cats - de T.S.Eliot - especialmente atenta às ambiguidades que se instalam em dois planos complementares existentes na obra. Por um lado, a tradução remete para o imaginário lúdico infantil onde os animais da fábula se encontram ao serviço de propósitos didácticos aparentes. Por outro lado, a tradução acompanha a representação caricatural eliotiana de figuras humanas e adultas que se sabem vinculadas ao espaço e ao tempo britânicos mas manifestam grande capacidade de distanciamento crítico. Desta permanente tensão deriva o texto português que pretende transmitir a intencionalidade irónica do original e recriar a sua peculiar sonoridade prosódica, através de timbres e pausas, ritmos e cadências, aliterações e assonâncias. Porque traduzir é também participar no grande jogo da linguagem com as suas regras, aventuras e seduções."

Traduzir a este nível é, sem dúvida, reescrever. E, com a qualidade de João de Almeida Flor, meu antigo professor na Faculdade de Letras da Universidade Clássica de Lisboa, porventura um dos melhores tradutores literários portugueses, esta tradução assume o estatuto evidente de reescrita. De forma impecável.

THE RUM TUM TUGGER

The Rum Tum Tugger is a Curious Cat:
If you offer him pheasant he would rather have grouse.
If you put him in a house he would much prefer a flat,
If you put him in a flat then he'd rather have a house.
If you set him on a mouse then he only wants a rat,
If you set him on a rat then he'd rather chase a mouse.
Yes the Rum Yum Tugger is a Curious Cat -
And there isn't any call for me to shout it:
For he will do
As he do do
And there's no doing anything about it!

The Rum Tum Tugger is a terrible bore:
When you let him in, then he wants to be out;
He's always on the wrong side of the door,
Ans as soon as he's at home, then he'd like to get about.
He likes to lie in the bureau drawer,
But he makes such a fuss if he can't get out.
Yes the Rum Tum Tugger is a Curious Cat -
And it isn't any use of you to doubt it:
For he will do
As he do do
And there's no doing anything about it!


RUFINO FINÓR
IO

Rufino Finório é um Gato Esquisito.
Se lhe derem faisão, antes quer galinhola;
Se o metem em casa, queria apartamento;
Se tem apartamento, casa preferia;
Se lhe oferecem ratinho, antes queria ratão;
Se lhe dão ratão, quem lhe dera ratinho
Pois Rufino Finório é um Gato Esquisito!
Nem é preciso ao vento bradar
Pois ele faz
O que quer
E não há nada a fazer!

Rufino Finório é bicho insuportável.
se o deixam entrar, pretende sair;
Fica sempre do lado das portas errado
E mal chega a casa, quer ir espairecer.
Adora dormir por entre os papéis
Mas se fica preso, faz logo escarcéu.
Pois Rufino Finório é um Gato Esquisito!
Nem vale a pena sequer duvidar
Pois ele faz
O que quer
E não há nada a fazer!

Da contracapa: ..." Escritos originalmente como presente de aniversário, transformados depois em musical de sucesso no mundo inteiro, estes poemas chegam hoje à língua portuguesa graças à tradução de João de Almeida Flor que soube conservar os lampejos do texto original sem perder de vista o seu entendimento para o público português."

sexta-feira, fevereiro 16, 2007

Mel de cana para os sonhos e malassadas

Este é um dos bons produtos da Madeira. No Carnaval comem-se sonhos e malassadas, regados com mel de cana.
Mas o sonho da Rubina , não é apenas este. Espreite no link, que vale a pena!

Aos Amigos


Bom fim de semana para todos e,
para os foliões,
bom Carnaval!

António Lobo Antunes disse a Maria Augusta Silva


Podemos começar por falar de amor?

Se eu souber responder...

O título do seu novo romance, Eu Hei-de Amar Uma Pedra, nascendo embora de um canto popular, terá a ver, igualmente, com impossibilidades do amor?

Não sei russo, mas quando dizem que Pushkin empregava a palavra carne e sentia-se o gosto da palavra carne na boca, isso tem a ver com as palavras que se põem antes e depois. É a mesma coisa que amor. Os substantivos abstractos são perigosos.

Há uma personagem no livro, que, à quarta-feira, ao longo de décadas, vai, secretamente, a uma pensão da Graça, ama e ali morre...

Foi daí que o livro veio. Só mudei o sítio. Sempre me espantou essa extraordinária forma de amor. A sexualidade, sempre tão importante para mim - e continua a ser -, cada vez me parece mais vazia de sentido quando não há outro modo de diálogo e de encontro, embora seja muito difícil resistir ao desejo imediato.

Amor é algo mais?

A noção de amor varia de pessoa para pessoa. Muitas vezes estamos apaixonados ou estaremos agradecidos por gostarem de nós? Ou será que o outro é apenas alguém junto de quem nos sentimos menos sozinhos? Não sei bem o que é a verdade acerca do amor e duvido que haja quem saiba. Só tenho perguntas, não tenho respostas. Até que ponto o amor não é apenas a idealização de um outro e de nós mesmos?

Nunca é fácil salvar uma relação...

Uma coisa é o amor, outra é a relação. Não sei se, quando duas pessoas estão na cama, não estarão, de facto, quatro: as duas que estão mais as duas que um e outro imaginam. Não me preocupa muito. Preocupa-me em relação a mim mesmo, mas há grandes partes da minha vida que eliminei sem piedade. Não vou a jantares, não vou a lançamentos.

E não tem solidões?

Preciso e gosto de estar sozinho.

Ao fim de 25 anos de vida literária, celebrados hoje, quem é António Lobo Antunes para António Lobo Antunes?

Vida literária custa-me a engolir, soa pretensiosa. Digo que se passam 25 anos sobre a publicação do primeiro romance [Memória de Elefante], que andou em bolandas, de editora em editora, a ser rejeitado. Quando saiu, já tinha acabado mais dois livros. Mas 25 anos é muito tempo e serve para ver que já não terei mais 25 para escrever.

Em princípio, a morte não está nas nossas mãos...

Às vezes, a gente morre por desatenção. Outras vezes morre-se quando se pode. Mas, a maior parte das vezes, morremos porque se nos acabou a saúde. Não fomos feitos para a morte, a não ser para a morte voluntária. A involuntária sempre me pareceu uma tremenda injustiça, para não falar em crueldade.

A intensidade poética da sua prosa é para aliviar tensões entre as personagens?

Não me é consciente. Uma coisa para mim é clara: tenho de proteger os meus ovos, que são os meus livros. Se racionalizar as coisas, perco-as. Estaria a fechar portas a mim mesmo e a essas coisas, que não sei bem se me pertencem, e emergem com essa força. Nos momentos felizes, a mão anda sozinha. A cabeça está a ver ao longe e fica contente, porque são as palavras certas que a cabeça não encontraria. É a mão.

Como dissocia o escritor da obra?

Não tenho bem a sensação de o livro nascer de mim. Faço a primeira versão, trabalho muito a segunda, no entanto, depois de entregar o livro, não vejo provas, não faço mais nada. Tudo o que quero é fazer outro. O livro só existe quando estou a escrever. E o tempo é-me muito curto. Se fizer mais dois ou três...

Um autor acéfalo conseguirá realizar uma obra-prima?

Se tiver uma mão suficientemente grande... Prende-se com um conjunto de coisas: primeiro, é preciso ter lido muito. Aprende-se a escrever, lendo. E também é necessária uma grande humildade face ao material da escrita. É a mão que escreve. A nossa mão é mais inteligente do que nós. Não é o autor que tem de ser inteligente, é a obra. O autor não escreve tão bem quanto os livros.

Está a dizer-me que o livro, em relação ao autor, é uma mentira?

Estou a dizer que o livro é melhor do que eu. Não escrevo assim tão bem.

Quem escreve o livro por si?

Um dia, em conversa com Eduardo Lourenço, a propósito de criação literária, ele lembrava o soneto de Pessoa (de quem não sou grande fã e ele é), que fala de «emissário de um rei desconhecido (...)», uma espécie de mensageiro. Há uns tempos, disse ao telefone, ao meu agente, ter a sensação de que era um anjo que estava a escrever por mim. Lembrei-me, então, que anjo quer dizer mensageiro. Quando estou a escrever, parece que estão a ditar-me e a mão a reproduzir.

Considera-se um predestinado?

Não. Isso até aumenta a humildade. Com o passar do tempo, há dois sentimentos que desaparecem: a vaidade e a inveja. A inveja é um sentimento horrível. Ninguém sofre tanto como um invejoso. E a vaidade faz-me pensar no milionário Howard Hughes. Quando ele morreu, os jornalistas perguntaram ao advogado: «Quanto é que ele deixou?» O advogado respondeu: «Deixou tudo.» Ninguém é mais pobre do que os mortos.

Despojamento, uma outra riqueza?

Quando uma pessoa morre, tira-se-lhe a roupa, objectos pessoais, o dinheiro, os óculos. Que vão vestir os mortos quando voltarem? Que dinheiro têm para comer quando voltarem? Morro, podem ficar os livros, mas os livros não são eu, que terei a boca cheia de terra e estarei no céu ou em parte alguma. Que diferença me faz? Quando voltar, com que óculos é que vou ler?

Como regressam os mortos?

E será que partem? Sou um homem religioso. Há um provérbio húngaro muito velho que diz: «Na cova do lobo não há ateus.» O nosso problema é se Deus acreditará em nós. Deus, porém, tem coisas incompreensíveis para mim. Acho que gosta muito dos tolos, porque não pára de os fazer. Mas, se calhar, o caminho de Deus terá tais profundezas que a gente não as entende. Tenho, sobretudo, a experiência das perdas. A perda de qualquer amigo é uma ferida que nunca cicatriza. A perda de pessoas de quem gostei, e que não são substituídas por nada, deixaram vazios que nunca serão preenchidos. Isso também ajuda a tornar-nos humildes.

Na desmultiplicação do narrador, em Eu Hei-de Amar Uma Pedra, todas as personagens se confrontam com perdas...

Dizem que os meus romances são polifónicos. Não são. É sempre a mesma voz que fala e gostaria que fosse também a voz interior do leitor. Ou melhor: essa voz não fala, nós é que a ouvimos.

Uma voz que se desdobra em vozes de muitas sombras?

Sombras, luzes. Gostaria que fossem vozes totais, para mim são vozes totais, porque trazem consigo carne, corpo. O drama é que a gente está a ler em folhas de papel. E, no entanto, nunca tive a sensação de fazer ficções.

O seu novo romance parte de fotografias. São o maior registo da memória?

Não acho que os romances sejam novos. Existem há muito tempo, à espera que seja capaz de chegar a eles. Em miúdo, conheci pessoas rodeadas de fotografias antigas. Perguntava quem eram aquelas pessoas, diziam-me ser o trisavô, todas pessoas mortas. Eu pensava: como podem estar mortas se olham para mim desta maneira, como se me conhecessem? Tinha a sensação de que as pessoas daquelas fotografias me compreendiam melhor do que as vivas. Naquelas fotografias amarelas subsistia a vida, o olhar. Na capacidade de transmissão de emoções e vivências, a fotografia sempre me fascinou. Nunca tirei uma fotografia, falta-me esse talento. Mas temos fotógrafos geniais.

Não tirou fotografias às suas filhas?

A ninguém. Da mesma maneira que nunca gosto de me ver fotografado.

Acha-se feio?

Nunca lidei bem com o meu corpo. Vejo agora fotografias de quando era bebé ou de há 30 anos, e era bonito. Quando tinha 18 anos, as mulheres metiam conversa comigo.

Em dado momento da sua vida, isso foi razão para o tornar vaidoso?

Não era importante. Importante era que as mulheres fossem bonitas. As mulheres sempre exerceram um grande fascínio sobre mim.

Sentiu falta de um elemento feminino entre os seus seis irmãos?

Não podia sentir, porque não sabia o que era o elemento feminino.

Havia a mãe, as avós...

As mães, os pais não têm sexo. A mãe era a mãe, e mulher do meu pai. Também não sabia muito bem o que era ser mulher do meu pai. Julgo que todos os miúdos vêem os pais de uma maneira assexuada. Eu via a barriga da minha mãe a crescer mas não sabia qual o mecanismo que fazia com que a barriga da minha mãe crescesse.

Acreditava que os bebés chegavam no bico de uma cegonha?

Comigo era diferente. O meu pai estava na Alemanha, vinha uma vez por ano e a barriga da minha mãe começava a crescer. Sabia que tinha alguma coisa a ver com o facto de o meu pai ter estado cá. Mas nunca os vi beijarem-se, não sabia muito bem como aquilo era feito.

Não se falava de sexualidade às crianças. Hoje, o próprio ensino dá-lhe alguma atenção. É melhor?

Não faço juízos de valor, não sou médico.

É médico psiquiatra...

Já não faço nada disso. Só escrevo palavras. Nunca analisei essa parte, só me interessava tentar entender. Se analisarmos, não entendemos.

Como se chega ao entendimento sem análise, sem crítica?

Por osmose. Quando se critica, estamos a julgar. Se julgarmos já não compreendemos, porque julgar implica condenar ou absolver. Acho que era Malraux quem dizia: «A partir do momento em que a gente compreende, deixa de julgar.»

Que tempo vivemos: o do julgamento?

Tenho uma vida um pouco especial. Estive recentemente na Roménia, um país que me encanta e me faz reaprender o que é a liberdade. Um país muito parecido connosco...

No aspecto da liberdade?

No da latinidade. Quando voltei, havia todas essas coisas provocadas por este espantoso governo que temos. Tudo o que se tem passado me dá vontade de rir. Nós nunca vivemos em democracia, tal como os EUA não vivem em democracia. A democracia implicaria um referendar constante das decisões, e isso não acontece.

Há eleições...

Vota-se de quatro em quatro anos, mas, entre esses quatro anos, não nos pedem opinião. O que se tem verificado em Portugal, a propósito da liberdade de imprensa, não passa de uma luta de poder igual a tantas outras. De uma forma geral, olho para os políticos com uma indulgência divertida, sejam de que partidos forem. Há pouco tempo, estava no estrangeiro, num encontro com cento e tal escritores, e ouvi falar de Portugal por causa do «barco do aborto». Comentava-se que um ministro nosso terá dito: O mar português é um mar com princípios. Foi um motivo de troça à minha custa, que não tinha culpa nenhuma.

Portugal é diferente dos outros países?

Claro que não. Nem somos piores. E temos uma língua espantosa. E um clima maravilhoso. Cada vez me seria mais difícil viver longe de Portugal. Gosto muito do meu país.

Costuma ler as críticas à sua obra?

Devo ser dos poucos autores que não lêem as críticas, sejam boas ou más. O que faço ainda é cedo para ser compreendido. Tenho a sensação que estou a escrever coisas maiores do que eu. É preciso deixar passar um tempo. Talvez daqui a 50 ou cem anos seja tudo mais claro. Se uma pessoa está à frente do seu tempo, isso provoca reacções contraditórias. Mas há críticos excelentes que iluminam zonas de sombra dos livros. É também preciso grande humildade para se escrever sobre o que se lê e não julgar-se um livro com a nossa chave. Temos de aceitar que há livros muito bons de que não gostamos e livros de que gostamos que podem não ser bons.

Prefere que a chave dos seus livros fique na posse do leitor?

A chave vem com o livro. Saber ler é tão difícil como saber escrever.

Há quem tenha dificuldade em entrar nos seus livros...

Para mim, os livros que escrevo são óbvios e evidentes. Ao lermos certos autores muito bons - estou a pensar no Conrad -, parece caminhar-se no meio do nevoeiro e, de repente, o nevoeiro começa a levantar-se e o livro fica totalmente claro. Quando, aos 20 anos, via um filme de Bergman, aborrecia-me profundamente.

A partir de que idade começou a entender Ingmar Bergman, considerado o cineasta da memória?

A partir dos 40, comovia-me até às lágrimas. Era eu que não estava preparado para ver aqueles filmes e notar o quanto de mim existia neles. Nós somos casas muito grandes, muito compridas. É como se morássemos apenas num quarto ou dois. Às vezes, por medo ou cegueira, não abrimos as nossas portas.

Quando na sua escrita suspende a frase, a palavra, deseja deixar portas abertas? Pretende ter o leitor como um interlocutor constante?

Fui compreendendo que tinha de pôr a prosa a respirar de uma outra forma. É também uma maneira de pontuar. O problema é como isso se traduz para outras línguas. Neste momento, na Rússia, estamos com problemas de tradutores de português; traduz-se a partir do alemão. O português, em muitos países, é como o esloveno para nós. Um país onde se traduz maravilhosamente é em Espanha.

Que imagem tem da língua portuguesa, falada por 250 milhões?

Na sua maior parte, as pessoas que conhecem o português em alguns países conhecem o português do Brasil, cujo léxico e musicalidade são diferentes. Julgo que o meu português coloca problemas específicos. Estou a lembrar-me do problema que foi para um tradutor expressões como alto lá com o charuto. Todas as línguas têm a sua idiossincrasia. Uma tradução acaba por ser uma fotografia a preto e branco.

Sente-se bem a escrever em português?

É a minha língua, não me imagino a escrever noutra.

Nos seus livros faz sempre uma visita à infância. É o património mais vasto e rico da sua escrita?

Queria que os livros tivessem todos os tempos da minha vida. Talvez a partir de uma certa idade estejamos mais atentos à nossa infância.

Estou a lembrar-me de Séneca, que diz: «Ama como se morresses hoje.» No seu caso, escreve como se pudesse morrer hoje?

Não quero nada morrer hoje. Estou a meio de um livro, não o queria deixar imperfeito. E queria viver mais dois anos para fazer outro, e mais dois para fazer outro, como se andasse a negociar a vida. Gostaria de ter mais dez anos para escrever. E se calhar, mesmo morto, a mão vai continuar a avançar.

Quando poderá o escritor ter a percepção de que deve parar?

A partir de certo momento, tudo começa a ossificar-se. Muitas vezes não temos essa percepção.

Tem palavras por meio das quais procure um significado absoluto?

Tenho aprendido mais a escrever com os poetas do que com os prosadores. Em poesia, pelo menos nos poetas que admiro, cada palavra tem um brilho próprio. Mas não gosto de dividir as coisas em romance, conto, novela, poema.

Convoca tantas flores para os seus livros... Fazem parte da sua natureza?

Vivo sem flores, não tenho flores em casa. Vivo com livros e quadros, a maior parte oferecidos pelo Júlio Pomar. Nunca tive bens materiais. Nem uso relógio. Posso fazer a mala e ir-me embora. Não estou agarrado às coisas.

DN online, 09.11.04

Dizem, e eu acredito, que ele é difícil de entrevistar. Gosto das respostas que dá, mesmo quando as perguntas o deixam pouco à vontade. E do ar que ele tem , de quem não sabe , mas sabe, o quanto vale.


quinta-feira, fevereiro 15, 2007

Sejamos parte da solução!

news.nationalgeographic.com/.../global_warming/


" Dez Coisas A Fazer "

foi o alerta lançado pelo Oceanário para ajudar a combater o aquecimento global:

01 - Mudar uma lâmpada - substituir uma lâmpada normal por uma lâmpada florescente poupa 68 Kg de carbono por ano;

02 - Conduzir menos - caminhar, andar de bicicleta, partilhar o carro ou usar os transportes públicos com mais frequência. Poupará 0,5 Kg de dióxido de carbono por cada 1,5 Km que não conduzir!

03 - Reciclar mais - pode poupar 1.000 Kg de dióxido de carbono por ano reciclando apenas metade do seu desperdício caseiro;

04 - Verificar os pneus - manter os pneus do carro devidamente calibrados pode melhorar o consumo de combustível em mais de 3 %. Cada 4 litros de combustível poupado retira 9 Kg de dióxido de carbono da atmosfera!

05 - Usar menos água quente - aquecer a água consome imensa energia. Usar menos água quente instalando um chuveiro de baixa pressão poupará 160 Kg de CO2 por ano e lavar a roupa em água fria ou morna poupa 230 Kg por ano;

06 - Evitar produtos com muita embalagem - pode poupar 545 Kg de dióxido de carbono se reduzir o lixo em 10 %;

07 - Ajustar o termostato - acertar o termostato apenas dois graus para baixo no Inverno e dois graus para cima no Verão pode poupar cerca de 900 Kg de dióxido de carbono por ano;

08 - Plantar uma árvore - uma única árvore absorve uma tonelada de dióxido de carbono durante a sua vida;

09 - Seja parte da solução - aprenda mais e torne-se activo em climatecrisis.net

10 - Espalhe a mensagem! - incentive os amigos a ver "Uma Verdade Inconveniente

Antes de imprimir este documento, pense se é mesmo necessário. Para produzir 1 tonelada de papel são necessárias 10 a 20 árvores, 10.000L de água e 5MW.hora de energia. Em média, por ano, uma família gasta em papel o equivalente ao abate de seis árvores. A protecção do ambiente deve ser uma preocupação de todos nós.


A Gripe e os Homens

Aqui por casa anda a gripe, no elemento masculino. Nem de propósito, uma amiga mandou-me esta sátira de António Lobo Antunes, muito adequada.


Pachos na testa, terço na mão,

Uma botija, chá de limão,

Zaragatoas, vinho com mel,

Três aspirinas, creme na pele

Grito de medo, chamo a mulher.

Ai Lurdes que vou morrer.

Mede-me a febre, olha-me a goela,

Cala os miúdos, fecha a janela,

Não quero canja, nem a salada,

Ai Lurdes, Lurdes, não vales nada.

Se tu sonhasses como me sinto,

vejo a morte nunca te minto,

Já vejo o inferno, chamas, diabos,

anjos estranhos, cornos e rabos,

Vejo demónios nas suas danças

Tigres sem listras, bodes sem tranças

Choros de coruja, risos de grilo

Ai Lurdes, Lurdes fica comigo

Não é o pingo de uma torneira,

Põe-me a Santinha à cabeceira,

Compõe-me a colcha,

Fala ao prior,

Pousa o Jesus no cobertor.

Chama o Doutor, passa a chamada,

Ai Lurdes, Lurdes nem dás por nada.

Faz-me tisanas e pão de ló,

Não te levantes que fico só,

Aqui sozinho a apodrecer,

Ai Lurdes, Lurdes que vou morrer.

quarta-feira, fevereiro 14, 2007

Happy Valentine's Day Everyone!


VALENTINE'S GIFT TO THE WORLD

I'd like to hang a valentine
Upon the world's front door,
with hearts of love and peace entwined
To last forevermore.

With love to guide our daily path,
There'd be no one in need;
God's blessings would be shared by all
Of every race and creed.

Peace would come to all the world
As nations great and small
Would put aside their selfish aims
To work for the good of all.

If I could have my wish today,
I'd wish for nothing more
Than to hang a great big valentine
Upon our world's front door.

~Kay Hoffman~

terça-feira, fevereiro 13, 2007

A Cebola

www.wholefoodsmarket.com/.../produce/onion.html

Rubem Alves afirma que depois de ler o poema de Pablo Neruda, uma cebola nunca mais será a mesma coisa. Fiquei curiosa e fui confirmar. Confirmei. Tem razão Rubem Alves.

Oda a la Cebolla

Cebolla
luminosa redoma,
pétalo a pétalo
se formó tu hermosura,
escamas de cristal te acrecentaron
y en el secreto de la tierra oscura
se redondeó tu vientre de rocío.
Bajo la tierra
fue el milagro
y cuando apareció
tu torpe tallo verde,
y nacieron
tus hojas como espadas en el huerto,
la tierra acumuló su poderío
mostrando tu desnuda transparencia,
y como en Afrodita el mar remoto
duplicó la magnolia
levantando sus senos,
la tierra
así te hizo,
cebolla,
clara como un planeta,
y destinada
a relucir,
constelación constante,
redonda rosa de agua,
sobre
la mesa
de las pobres gentes.

Generosa
deshaces
tu globo de frescura
en la consumación
ferviente de la olla,
y el jirón de cristal
al calor encendido del aceite
se transforma en rizada pluma de oro.

También recordaré cómo fecunda
tu influencia el amor de la ensalada
y parece que el cielo contribuye
dándote fina forma de granizo
a celebrar tu claridad picada
sobre los hemisferios de un tomate.
Pero al alcance
de las manos del pueblo,
regada con aceite,
espolvoreada
con un poco de sal,
matas el hambre
del jornalero en el duro camino.
Estrella de los pobres,
hada madrina
envuelta en delicado
papel, sales del suelo,
eterna, intacta, pura
como semilla de astro,
y al cortarte
el cuchillo en la cocina
sube la única lágrima
sin pena.
Nos hiciste llorar sin afligirnos.

Yo cuanto existe celebré, cebolla,
pero para mí eres
más hermosa que un ave
de plumas cegadoras,
eres para mis ojos
globo celeste, copa de platino,
baile inmóvil
de anémona nevada

y vive la fragancia de la tierra
en tu naturaleza cristalina.

Pablo Neruda

sábado, fevereiro 10, 2007

Da vida de Rui Romano

Da vida
que decorre
em meu redor
Tiro a lição
de que Deus existe
na brisa
que corre
encapelando o mar
na criança
que abre os olhos
e sorri.
Na vida
há jardins
de esperança
lagoas
de amargura
mares
de tédio
e de ódio
Mas a vida
é também
a semente que germina
e floresce
cada dia
o grito
de júbilo
e orgulho
da maternidade
Sejamos
dignos
de viver a vida
talhando
no desconhecido
as formas
que fazem
a vida
viver.
Sejamos
infinitos
e divinos
actuando a vida
na soma
de muitas mortes.
De todas
as mortes!

Poema de Rui Romano, 1974, incluído no seu livro POESIA, edicão do autor.

O Rui é natural de Angola e esteve ligado à Radio Televisão Portuguesa. Fizemos juntos uma viagem ao Oriente em 1990. Infelizmente ele ficou pouco mais tempo entre nós. Hoje, ao reler os seus poemas, este fez todo o sentido, outra vez. Na dedicatória do livro "Após Tailândia, Macau, Coreia do Sul...ao N. e à M.E. - um casal que se encontrou com a minha difícil sensibilidade - este testemunho, já antigo, mas vivo, de um tempo paradoxal: angústia, esperança, futuro a Haver, Amor pela Vida, esconjuro das sombras. Com ternura e muito apreço do Rui Romano".
Sempre vivo, o testemunho do Rui.

quarta-feira, fevereiro 07, 2007

Ao espelho

A mãe de uma amiga minha achava-se muito parecida com a Ava Gardner. A senhora era lindissima mas de um tipo de beleza bem diferente do da glamorosa diva.
Também era muito gentil e boazinha, o oposto da madrasta da Branca de Neve mas, quando ela nos convocava para junto do espelho e perguntava, observando deliciada a sua imagem e querendo vê-la do mesmo modo observada Vocês não me acham parecida com a Ava Gardner? , pelo sim pelo não, iamos logo confirmando.


Como eu vejo Simão

Que me perdoe o prezado Simão Cireneu, do afamado Caravançará,
se a imagem não lhe faz justiça, como pretendo,
mas é assim que eu o imagino,
quando tento imaginá-lo,
de tão sabedor,
sábio mesmo
que ele é.
Há quem tenha adquirido grande sabedoria dos livros, outros da vida.
Simão tem tudo.

Quem sou eu para duvidar!


"There are seven genuine movie stars in the world today, and Sean Connery is one of them."
- Steven Spielberg

domingo, fevereiro 04, 2007

Há fruta... e fruta


A associação de ideias aconteceu assim, mais ou menos: Eu tinha estas fotos da bela fruta que encontrei na Noite do Mercado, no Funchal, em Dezembro passado. Fruta acessível, bela, colorida, que podemos apalpar (com geitinho) e levar para casa.
E dei comigo agora a pensar que contrasta com a ' fruta', apetecível mas inacessível e completamente fora do alcançe das nossas bolsas e dos nossos apetites que reproduzi no post anterior. As meninas que comentaram vão perceber onde quero chegar...

Quem?

Este aqui?
Umm, bem ... não está nada mal também.
Lembra-me alguém...
Vou ver se me lembro quem.
Quem?

sexta-feira, fevereiro 02, 2007

Dança Inclusiva







Trata-se de um projecto muito interessante que integra artistas com diversos tipos de reduções de mobilidade. Já vem sendo desenvolvido na Madeira há alguns anos pelo Grupo Dançando Com a Diferença e tem contribuido, sem dúvida alguma, para elevar a auto-confiança de todos os participantes. O seu sucesso tem sido grande, de tal forma que já tiveram convites para se deslocar ao exterior.
A apresentação de um grupo brasileiro com projecto idêntico, que fotografei na Casa das Mudas, na Calheta, há algum tempo atrás, decorria, na sua primeira parte, fora da sala de espectáculos, como se os actores estivessem a levar a cabo as rotinas da sua própria vida. E usavam as cadeiras de rodas como complemento aos seus movimentos, de forma criativa e artística. O público daquele dia incluia várias senhoras do Centro de Dia da Santa Casa da Misericórdia da Calheta que 'apanhei' com olhar atento, mas um pouco surpreendidas com o espectáculo.

Se é bom para a cidade...


... vai ser bom para mim, espero! Comecei hoje a tomar Própolis. Para melhorar as minhas defesas contra infecções e como hipotensor natural. Encontrei mais informação aqui, depois de me aconselhar também na loja de produtos naturais Bioforma.

Como mudam os tempos!


Quando eu era jovem, não era fácil andar fora de casa a más horas.E os perigos eram bem menores que os de hoje!
Os meus pais eram convictos adeptos do horário de Cinderela: antes da meia-noite, toca a voltar para casa, senão o feitiço terminava e as consequencias eram um grande castigo, que eu aqui nem vou nomear, para não parecer tão antiga...
Até aos 21 anos nunca fiquei fora de casa depois da meia-noite, uma única vezinha! Com essa maior-idade fui autorizada a ir, uma vez, só para saber como era, a um local de diversão nocturna, que na altura se chamava 'boîte', na companhia de um casal amigo, mais velhos e respeitaveis do que eu.