segunda-feira, maio 22, 2006

Uma morte tranquila


Na página 6 do indispensável JL encontrei, com gosto, um destaque a Glicínia Quartin sob o título Uma vida independente. E dei comigo a pensar na imensa felicidade das suas circunstâncias: uma morte tranquila depois de uma vida independente.
Dias antes tinha visto a maravilhosa entrevista, ou melhor, o maravilhoso documentário que com ela fez Jorge Silva Melo, fundador da Cornucópia com Luis Miguel Cintra, seus dois "filhos dilectos".
E notei como ela estava à vontade diante dele e da câmara, numa intimidade conseguida por uma profunda amizade . E deixou-nos revisitar a sua carreira, no teatro e no cinema, depois da outra , a de bióloga. E as perguntas nem se ouviam, o entrevistador nem aparecia. Era ela ali, em destaque absoluto! Se todos os profissionais da comunicação soubessem ser e não estar como o Jorge Silva Melo! Mas ele é um talento tão grande - desde o Grupo de Teatro da "nossa" Faculdade de Letras , que só ele mesmo!
E recordei os anos agitados entre 68 e 71, lembrei o dia em que ele foi gravemente ferido pela polícia de choque. Revi os acontecimentos desse dia, os protagonistas, a agonia, a revolta estudantil, o nosso saudoso Professor Lindley Cintra - "O Captain! my Captain!"...
Aquilo que somos foi aquilo que ficámos a ser, desde então.
Um dia a morte possa vir também, para nós, tranquila, depois duma vida independente.

quarta-feira, maio 17, 2006

Ser tia é ...


Ser tia é ficar feliz com a chegada, achar que o mundo mudou para sempre e para melhor. É brincar no chão como se voltasse a ser criança, rir e gostar como se a vida fosse só ali. É mudar os planos para atender, alterar tudo para acompanhar. É ficar em dezenas de fotos, para recordar mais tarde e mostrar que tia esteve ali, em tantos, tantos momentos. É saber de cor cada tentativa de palavra, ver nascer cada dentinho, dar beijinho no dói-dói, deitar juntinho no sofá, ver dez vezes o filme predilecto. Voar 600 milhas de céu, ida e volta, e achar que não há nada mais importante do que estar presente. Ser tia é ver cada graçinha como um espectáculo, é dizer com convicção que não há outro tão bonito como o seu, é pôr a mãe dele como a primeira mãe da lista. Ir buscar à escola para escolhê-lo de entre todos os outros e trazê-lo contente para casa. É mostrar-lhe coisas novas para o deslumbrar.
É, enfim, ter a certeza que, venham outros, ele será sempre o primeiro. Superlativo. Absoluto. Simplesmente.


Um amigo é...

Um amigo é 'alguém que nos ampara, nos aprova, por vezes nos combate; alguém que partilha connosco, com igual fervor, as alegrias da arte e da vida, os seus trabalhos jamais aborrecidos e jamais fáceis; alguém que não é a nossa sombra, nem o nosso reflexo, nem mesmo o nosso complemento, mas ela própria; alguém que nos deixa livres e, contudo, nos obriga a ser plenamente o que somos'.

Marguerite Yourcenar
em 'Apontamentos sobre Memórias de Adriano'

Entregue pela Mª do Carmo Araújo quando, em 2004, iniciou outra etapa da vida. Ela tem sido o que Yourcenar tão bem define. Posso sempre contar com ela e sei que acreditará sempre mais em mim do que eu própria.

Mãe...há só uma?


Muitos têm uma segunda Mãe, por circunstâncias várias da vida. Eu tenho uma e, agora que me falta a outra, a primeira, é optimo saber que a tenho. Tenho-a agora e tive sempre, desde que vim ao mundo. Sempre que precisei dela...ela esteve! Tenho sorte porque ela acaba de completar 90 anos e consigo ter razões e esperança de continuar a tê-la até, pelo menos, ao centenário! É linda e meiga e ouve-me com atenção. Fica feliz quando estou e sabe pressentir algum problema, por amor e intuição . Não teve filhos e eu sou, a primeira e a mais próxima, do coração.

quarta-feira, maio 03, 2006

A minha Professora de Inglês

Não foi ela a única. Mas é única!

Eu tinha 13 anos, ela apenas mais outros tantos. Era uma jovem professora e estava quase a tornar-se uma jovem mãe. Chegou ao Colégio e agradou logo - competente, assídua, muito interessada pelos seus alunos; alta, magrinha, feminina, com uma voz muito doce que cativava pelo tom e pelas palavras.
A Doutora Maria Fernanda Henriques Fialho de Lima Martins ainda hoje é assim e já passaram mais de 40 anos. Telefono-lhe para ouvir a doçura da sua voz, para sentir as suas palavras cheias de afecto e carinho. Reencontrámo-nos a certa altura do percurso das nossas vidas e, desde então, temos estado juntas de muitas formas: na sua casa ou na minha, através de cartas, telefones, fotografias e...pela internet. Demos passeios por sítios lindos.Os meus pais tinham por ela enorme afecto e julgo até que, no ano em que esteve a trabalhar com eles (eram Directores do Colégio) a minha mãe achou que era um pouco também mãe dela, acarinhando-a e preocupando-se com o seu bem estar como se de uma filha se tratasse. E ela retribuiu sempre esse afecto.

Há dias fez anos e escreveu-me pedindo que rezasse por ela pois ainda se sente, no limiar de nova década, "com interesse por muitas coisas".

Minha querida Professora: é claro que rezarei, mas do seu interesse pelas coisas
e da sua capacidade para fazer diferença entre os que a rodeiam, não tenho a mais pequena dúvida. E, por favor, continue a estar presente, porque a minha vida sem a sua presença seria muito menos interessante!