Mostrar mensagens com a etiqueta escola. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta escola. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, janeiro 15, 2007

Uma vida na escola

foto tirada pelo meu pai, há 50 anos

Nasci numa escola.

Tudo indica que morrerei também numa escola, a manter-se a política de aumento progressivo da idade da reforma. Uma escola seja, então, a minha sepultura! Mas isto é outro assunto e daria (dará!) outro post.
Voltemos ao início. Nasci numa escola, literalmente. Os meus pais viviam no colégio onde leccionavam e eram co-proprietários, o Colégio Garcia de Orta* na Rua Sousa Martins, em Lisboa, bem perto do Liceu Camões e da Maternidade Alfredo da Costa. A circunstância, algo inusitada, de ter nascido em casa e não na maternidade, já foi referida noutro post. Adiante.

Começei a "frequentar" aulas a partir dos dois anos de idade, levada para as salas, ora pelos meus pais, ora pelos meus padrinhos de registo, ambos também professores e sócios do colégio.
Ficava, muito sossegada, a escrevinhar numa folha ou no quadro preto. Imagino que nem distraía os alunos que, nesse tempo, não ousariam distrair-se... Lembro essa fase da vida com grande nitidez.
Quando fui para a escola como aluna, matriculada na 1ª classe, sabia mais do que me tinham ensinado... Aprendera a ler, sózinha, lá pelos cantos onde me sentava com os livros, os primeiros ainda de pano, só depois os de papel, juntando as letras e as sílabas, formando depois palavras e frases, como se isso fosse tão fácil e natural como andar ou falar.

A minha primeira professora primária não teve, portanto, de me ensinar "as primeiras letras", mas guardei sempre dela uma recordação doce e grata. Ensinou-me muitas outras coisas.
A Senhora Dona Maria Amélia Dias de Deus era uma viúva ainda jovem, sempre vestida de negro, de semblante sereno e triste.
Ficara só com dois filhos, dois rapazes que eram o seu enlevo e a sua preocupação. Durante anos a minha mãe correspondeu-se com ela e foi sabendo do percurso académico, brilhante, dos dois. Um médico, outro engenheiro, professor universitário este.
Ainda gostava, um dia, de os encontrar e recordar, com eles, a sua mãe, minha primeira professora.

Ando a ficar velha e melosa, disso não resta dúvida...



*NOTÁVEL MÉDICO e biólogo quinhentista Garcia de Orta (1499-1568), filho de pais espanhóis estabelecidos em Castelo de Vide, realizou os estudos em Espanha, tendo exercido medicina em Portugal.

Verdadeiro "homem do Renascimento", foi um dos percursores do experimentalismo apoiado no primado da razão, concepção que pôs em prática durante uma vida inteira dedicada ao estudo "in loco" dos mais variados tipos de flora.

Embarcou para a Índia em 1534, segundo alguns historiadores por receio da Inquisição. Fixou-se em Goa como físico de Martim Afonso de Sousa, capitão-mor do Mar das Índias. Aí continuou a sua carreira de médico, contactando e confrontando conhecimentos com especialistas locais, árabes hindus e persas. Viajou por todo o país, estudando e coleccionando produtos naturais. Tal recolha deu-lhe material suficiente para constituir uma biblioteca, um museu e um jardim onde criava e aclimatava espécies raras de plantas.
Apesar de uma vida rica em estudos e experimentações, apenas publicou um livro. "Colóquios dos simples e drogas he cousas medicinais da Índia e assi dalguas frutas achadas nella onde se tratam alguas cousas boas pera saber" foi o comprido título da obra escrita em português e dada à estampa em Goa, no ano de 1563. Tratou-se do primeiro registo científico de plantas do Oriente feito por ocidentais. O seu extremo interesse científico levou a que passados apenas quatro anos já tivesse sido traduzido e impresso na Europa. Utilizado por cientistas das mais variadas áreas, trouxe informações fundamentais para a medicina, botânica, física, química, farmacologia e biologia.

Além de se tratar de uma autêntica enciclopédia medico-botânica, contribuiu igualmente para o conhecimento da etnologia, etnografia e até geografia do Oriente. Dada a riqueza e diversidade informativa, ainda hoje o "Colóquios" é popular entre os botânicos, que o continuam a utilizar como obra bibliográfica essencial.

Instituto Camões
M.C.L.