Nasci numa escola.
Tudo indica que morrerei também numa escola, a manter-se a política de aumento progressivo da idade da reforma. Uma escola seja, então, a minha sepultura! Mas isto é outro assunto e daria (dará!) outro post.
Voltemos ao início. Nasci numa escola, literalmente. Os meus pais viviam no colégio onde leccionavam e eram co-proprietários, o Colégio Garcia de Orta* na Rua Sousa Martins, em Lisboa, bem perto do Liceu Camões e da Maternidade Alfredo da Costa. A circunstância, algo inusitada, de ter nascido em casa e não na maternidade, já foi referida noutro post. Adiante.
Começei a "frequentar" aulas a partir dos dois anos de idade, levada para as salas, ora pelos meus pais, ora pelos meus padrinhos de registo, ambos também professores e sócios do colégio.
Ficava, muito sossegada, a escrevinhar numa folha ou no quadro preto. Imagino que nem distraía os alunos que, nesse tempo, não ousariam distrair-se... Lembro essa fase da vida com grande nitidez.
Quando fui para a escola como aluna, matriculada na 1ª classe, sabia mais do que me tinham ensinado... Aprendera a ler, sózinha, lá pelos cantos onde me sentava com os livros, os primeiros ainda de pano, só depois os de papel, juntando as letras e as sílabas, formando depois palavras e frases, como se isso fosse tão fácil e natural como andar ou falar.
A minha primeira professora primária não teve, portanto, de me ensinar "as primeiras letras", mas guardei sempre dela uma recordação doce e grata. Ensinou-me muitas outras coisas.
A Senhora Dona Maria Amélia Dias de Deus era uma viúva ainda jovem, sempre vestida de negro, de semblante sereno e triste.
Ficara só com dois filhos, dois rapazes que eram o seu enlevo e a sua preocupação. Durante anos a minha mãe correspondeu-se com ela e foi sabendo do percurso académico, brilhante, dos dois. Um médico, outro engenheiro, professor universitário este.
Ainda gostava, um dia, de os encontrar e recordar, com eles, a sua mãe, minha primeira professora.
Ando a ficar velha e melosa, disso não resta dúvida...
*NOTÁVEL MÉDICO e biólogo quinhentista Garcia de Orta (1499-1568), filho de pais espanhóis estabelecidos em Castelo de Vide, realizou os estudos em Espanha, tendo exercido medicina em Portugal. |
