
Tentar "descobrir a música que se toca dentro do nosso corpo, inaudivelmente, apesar dos ruídos da estática que enchem o nosso espaço". Rubem Alves
sábado, julho 01, 2006
Muitas graças temos que dar...

O "brinquinho"
O Bailinho da Madeira
O "brinquinho" é o instrumento regional típico da Madeira, em que um grupo vestido com o traje regional dança em torno.
Este instrumento musical é composto por um conjunto de bonecos de paus (vestidos com o traje tradicional), castanholas e fitilhos, dispostos numa cana de roca e movimentado pelo portador, com movimentos verticais.
A maioria das pessoas conhece este "bailinho". No entanto existe outro, mais popular e rústico chamado "brinco", que os camponeses tocam nos arraiais típicos.
Sem qualquer regra ou restrição, é cantado e bailado por todos. Basta querer entrar na roda.
O "brinquinho" é apenas utilizado no bailinho coreografado que surgiu quando começaram a aparecer os primeiros ranchos folclóricos, há cerca de 50 anos. Actualmente são estes que retratam as danças e cantares da Ilha da Madeira
sexta-feira, junho 30, 2006
À NOSSA!
Vinho da Madeira - (1808/1810) Considerado um dos vinhos de maior requinte nas cortes europeias, tendo chegado mesmo a ser usado como perfume para os lenços das damas da corte. Na corte inglesa este vinho rivalizava com o vinho do Porto. Shakespeare (1564/1613) referiu-se ao vinho da Madeira como essência preciosa, na sua peça "Henrique IV". O duque de Clarence, irmão de Eduardo IV (séc. XV) deixou o seu nome ligado a este vinho quando, ao ter sido sentenciado à morte na sequência de um atentado contra o seu irmão, escolheu morrer por afogamento num tonel de Malvasia da Madeira. Mas para além da Inglaterra, também a França, a Flandres e os Estados Unidos o importavam. Francisco I (1708/1765), orgulhava-se de o possuir e considerava-o "o mais rico e delicioso de todos os vinhos da Europa". Vamos dar-lhes o Bailinho!

Bailinho da Madeira
REFRÃO
Deixai passar
Esta nossa brincadeira
Que a gente vamos bailar
O bailinho da Madeira
A Madeira é um jardim
Embalado ao som do mar
Tem prados cheios de relva
E ribeiras a cantar
Eu venho de lá tão longe
Venho sempre à beira mar
Trago aqui estas couvinhas
P'rá amanhã o seu jantar
A Madeira é um jardim
No Mundo não há igual
Seus encantos não têm fim
É filha de Portugal
Eu venho de lá tão longe
E de correr venho cansado
Vejo aqui tanta gente
Fico um pouco envergonhado
Portugal é um jardim
Plantado à beira mar
Mas a Madeira é mais linda
É mais linda e não tem par
Minha terra é a Madeira
Ouvindo-se o som do mar
No fim de cada ladeira
Há ribeiras a cantar
Estamos a comemorar 30 anos de Autonomia

Hino da Região Autónoma da Madeira
Do vale à montanha e do mar à serra,
Teu povo humilde, estóico e valente
Entre a rocha dura te lavrou a terra,
Para lançar, do pão, a semente:
Herói do trabalho na montanha agreste,
Que se fez ao mar em vagas procelosas:
Os louros da vitória, em tuas mãos calosas
Foram a herança que a teus filhos deste.
Por esse Mundo além
Madeira teu nome continua
Em teus filhos saudosos
Que além fronteiras
De ti se mostram orgulhosos.
Por esse Mundo além,
Madeira, honraremos tua História
Na senda do trabalho
Nós lutaremos
Alcançaremos
Teu bem estar e glória.
Guia Madeira Net 1998 - 2005 © Todos os direitos reservados
letra: Ornelas Teixeira
música: João Victor Costa
Decreto Regional 12/80/M 16 de Setembro
quinta-feira, junho 29, 2006
Preciso de um chapéu!

Tea at Reid's
A culpa foi da redoma

Tendo já passado os trinta e mãe de duas filhas- pormenores relevantes para a história-, certo dia adoeci, com febre alta e conjuntivite. Chamado um jovem médico amigo, diagnosticou uma gripe e receitou já não sei o quê.Tomei e ...fiquei pior.O corpo encheu-se de manchas vermelhas, a febre aumentou, os olhos incharam. Chamado de novo, opinou o médico: alergia a algum medicamento! Huum... o N. duvidou. Aquele meu estado, além de muito preocupante era...intrigante. Resolveu chamar o doutor Rui Silva. Mais velho e muito experiente, ele ia descobrir a minha maleita.
Chegou ao meu quarto, escurecido porque a conjuntivite me impedia de olhar a luz e deu ordem firme: "Abram essa janela! Quero olhar bem para ela!".E olhou uns instantes, com ar muito sério. Senti um certo medo... Ele tinha fama de "duro": anos antes, ao N. , na altura fumador compulsivo, o dr Rui Silva pregou tamanho susto que, ao sair lá do consultório, nunca mais fumou. Até hoje!
Qual iria ser a sua "sentença"?
"Onde é que você viveu? Numa redoma?" perguntou, com ar de poucos amigos.
Céus, credo! Entendi logo o que ele queria dizer! Eu estava com uma doença contagiosa que deveria ter tido antes, talvez em criança, se não tivesse vivido na tal "redoma".
"Sou filha única, sr. doutor", esclareci à laia de desculpa, quase como se o informasse de uma malformação congénita. "Contactei pouco com crianças. Nem tenho primos da minha idade."
Na Madeira onde, na altura, abundavam as famílias numerosas, - ter dez ou doze filhos era comum- , iria ele compreender o drama das minhas circunstâncias adversas, a solidão da minha infância, o facto de eu ser... diferente?
Aguardei, assustada, o diagnóstico.
"Você está com SARAMPO!" disse o dr.Rui Silva, implacável, sem se rir.
Naquela altura, se ele tivesse dito "lepra", eu teria ficado menos embaraçada...
foto de Manuel Nicolau: o dr Rui Silva hoje, com 86 anos
quarta-feira, junho 28, 2006
Ela é a verdadeira Emília!

Ao entrar para a blogosfera, escolhi o nome da minha personagem favorita no reino da fantasia.
"Uma boneca de pano feita pela tia Nastácia. Era muda até que engoliu a pílula da fala inventada pelo doutor Caramujo. A partir daí, fala como uma matraca. Emília é muito independente, a tal ponto que ela mesmo se auto define como 'independência ou morte'. É também uma filósofa e acredita que 'a verdade é uma espécie de mentira bem pregada, das que ninguém desconfia'."
Churchill na Madeira

terça-feira, junho 27, 2006
Um Lobo-marinho chamado Desertinha
Vou aqui pedir licença à bióloga Rosa Pires, autora de um artigo publicado na Revista do DN-Madeira desta semana, para dele usar uma foto e alguma informação. Tenho a certeza de que não se importará de ver divulgado o tema da sua especialidade também através desta via.Os antepassados da Desertinha viviam numa pequena baía da costa Sul quando os portugueses chegaram à Madeira em 1419, comandados por João Gonçalves Zarco . Esse local passou, por isso, a ser conhecido por Câmara de Lobos. Numerosos e confiantes, os Lobos-marinhos eram vistos com frequência nas costas da Madeira. No entanto, sendo animais tímidos por natureza, ao sentir-se ameaçados pela redução do seu habitat natural que passou a ser ocupado pelo Homem e pelo aumento da actividade piscatória, refugiaram-se nas Ilhas Desertas (ver localização no mapa, neste blog).
A Foca-monge do Mediterrâneo ou Lobo-marinho, Monachus monachus, é uma espécie ameaçada de extinção. No mundo não existem actualmente mais do que poucas centenas destes animais.
Nas Ilhas Desertas, protegidas por legislação nacional e internacional, vive uma colónia com cerca de 23 indivíduos desta espécie rara. Verificando-se 1 a 3 nascimentos por ano, a colónia está em recuperação, graças a um projecto do Parque Natural da Madeira que monitoriza a espécie e o seu habitat in loco, bem como promove a educação ambiental.
O pior é que ela apareceu ferida, há poucas semanas. Mantendo-se no mar embora com aspecto desgastado, boiava de olhos fechados para descansar. Os seus movimentos foram acompanhados durante semanas e parece já estar a recuperar, alimentando-se e parecendo estar mais activa. Resta-nos esperar que tudo corra bem para ela e volte a ser como dizem que era: aventureira e veloz ainda que esquiva, como é próprio da sua espécie.
segunda-feira, junho 26, 2006
sábado, junho 24, 2006
quinta-feira, junho 22, 2006
All my eggs in one basket
Ontem à noite, os mais jovens da minha família - duas filhas, um genro e um neto, tiveram a insensata ideia de regressar de Lisboa à ilha todos no mesmo avião! Coisa arrepiante!De véspera tive pesadelo, de manhã acordei preocupada, à tarde andei ansiosa e à noite estava quase em pânico, à medida que a hora do voo se aproximava.
Eu sei que não somos a família real nem nada mas, porque é que a minha 'carga preciosa' haveria de meter-se toda no mesmo 'contentor'?!
Quando por cá falam dos 'custos de insularidade' referem-se a aspectos financeiros, claro está, mas, para mim, estas aflições custam mais do que ter de pagar os produtos e serviços mais caros
do que noutras regiões do país.
quarta-feira, junho 21, 2006
Voos de ensaio

Todos pareciam estar tranquilos. Minutos antes do toque que indica o início, nacional, costumo dizer-lhes alguma coisa para ajudar a aliviar alguma tensão que possam estar a sentir. Perguntei quantos ali procuravam o acesso ao curso de Medicina. Sorriram todos timidamente e nenhum fez sinal a indicar o sim. Não?. Surpreendi-me. E Enfermagem? quis saber a seguir. Dois levantaram o braço. E os outros?. Já não perguntei. Se calhar ainda não tinham ideia bem definida...Não é fácil nos dias de hoje fazer projectos para o futuro. Há tantos caminhos que podem levar a lugar nenhum!
Abri o pacote de enunciados um minuto antes da hora, espreitei lá para dentro sem tirar de lá as provas e garanti-lhes, em ar de brincadeira: "É fácil!".Tocou logo depois. Ainda lhes disse a quebrar o silêncio enquanto distribuiamos as folhas: "Que corra bem para todos!".
Lá se entregaram muito compenetrados à tarefa. Duas horas de trabalho pela frente!
Olhei para eles aquele tempo todo e pensei sobre o que poderá vir a ser o seu amanhã, neste mundo, neste país ...
Não sei se é dos anos que já levo, de vida e de profissão, mas a verdade é que me enterneci a olhar aqueles jovens de 18 anos, eu com quase mais quarenta...Passei aquelas duas horas a desejar, com muita força, que aquele exame e a vida corressem decididamente bem para todos eles.Era tudo o que tinha para dar-lhes, naquele momento...
terça-feira, junho 20, 2006
Saída de cena
Luzes

Brilha mais de noite
que de dia
minha luzinha noctívaga
pirilampo
mágico!
Às vezes apaga,
literalmente!
Puf!
Outras vezes dá curto-circuito,
por sobrecarga.
Zás-catrapás!
Mas logo volta a brilhar,
tranquila e cheia de luz.
Brilho nos olhos, brilho na voz...
O seu brilho deixa muitos
ofuscados.
A sério!
Quando ela sai de dia
o sol às vezes se esconde.
À noite é vê-la brilhar
entre as luzes da minha cidade!
segunda-feira, junho 19, 2006
Começaram os exames
Hoje, mais de 170 mil alunos começaram os seus exames, uns para concluir o ensino secundário, outros para ingresso nas Universidades. Que corra tudo bem para todos e o futuro lhes seja risonho! (isto está a ser escrito com um suspiro indicativo de pouca esperança :( Mas se se debruçaram sobre as matérias com o mesmo entusiasmo deste colega aqui, vão conseguir! Felicidades então!
domingo, junho 18, 2006
Humor melancólico

Nossa muito amada cocker spaniel dourada Cookie - mais vezes tratada por Cookinha, aqui num momento de melancolia e em posição típica de fêmea da sua raça.
Idade actual: 2 anos
Apetite: voraz
Temperamento: Imprevisível, meiga, ágil, curiosa
Pior defeito: excessiva dependência afectiva da família - chora como cachorro abandonado na hora em que todos saem de casa
Maior qualidade: basta olhar para ela - o olhar é irresistível
O tempo 'tá forrado!

Esta e outras expressões releio, a cada passo, num livrinho precioso, cuja folha de rosto aqui mostro.
Foi uma oferta, à data, de um querido amigo. Um ano depois passou a ser um querido pai. Na altura em que escreveu a dedicatória, nem ele, nem eu, sabiamos que a minha "passagem pela Madeira" iria ser para toda a vida...
José Agostinho Baptista

Como se fosses a segunda mãe do vasto mundo por
onde me perdi,
como se fosses a irmã assombrada pelos relâmpagos
e pelas águias,
de ti parti e regressei, muito depois.
Sempre tiveste todos ps rostos,
todas as formas da terra, todos os litorais por
onde passai,
sempre...surgiste de frente,
junto à mina porta,
golpeando as suas tábuas sombrias, e,
emudecida pelo rumor da água,
abriste o teu corpo de pedra onde respirei.
Pespirei pesadamente, diga-se,
porque ouvi, ao fundo de uma ribeira,
as rodas que atravessavam o silêncio das últimas
rosas.
Eu estava ali, mas não me vias.
Falava, gritava, batia nos muros da tua escuridão,
mas nada dizias,
mater, mater dolorosa e cega...
Já me esqueceste,
eu sei.
Por isso, vinte anos mais tarde,
quando abrias as corolas do sexto mês, não me
ouviste dizer:
subi às montanhas, escrevi no céu,
mas não vi as cálidas luzes do sul,
não quebrei com elas os espelhos da minha treva.
Três vezes perguntei:
por que me esqueceste?
se estou aqui junto à igreja,
no campo santo das flores deslumbradas, onde os
teus mortos dormem,
também esquecidos de mim.
Três vezes me voltei de costas para deus e caminhei
em direcção à casa.
Alguém fechou as janelas para sempre.
Ao anoitecer, sob a meia lua dos sonhos,
ainda se ouve um lamento.
Esta casa desmorona-se.
Esta casa dói.
Fechas-te.
Voltas-te para dentro,
iluminas com invisíveis candelabros as aldeias do
homem,
mas esqueces os violinos distantes que o inverno
apagou,
mater, mater dolorosa e cega...
Existes, simplesmente.
És verde e alta e obscura,
quando visitas os quartos do medo, onde já não
dorme a criança sem voz.
Recolhes,
entre as espessas dobras do teu manto,
um segredo que condena o mundo.
Recolhes-me e logo te afastas,
como se agora um derradeiro fogo ardesse nas
minhas veias,
neste século de agonia que me roubou todas as
estrelas.
Passa, ao largo,
um barco que sobrevive às tempestades,
sobre o dorso branco e negro das tuas vagas.
São quatro ou cinco ou seis horas,
no relógio parado da mesma igreja.
Sob a devastadora música dos teus sinos,
estremece a minha rais solitária.
Então, bruscamente,
levanto-me e bato as asas, voando em círculo.
Sou um pássaro perdido.
sexta-feira, junho 16, 2006
Homenagem
Ilha Deitada és uma ilha e raramente
surgem ilhas no mar tão alongadas
com tão prometedoras enseadas
um só bosque no meio florescente
promontórios a pique e de repente
na luz de duas gémeas madrugadas
o fulgor das colinas acordadas
o pasmo da planície adolescente
Deitada és uma ilha que percorro
descobrindo-lhe as zonas mais sombrias
Mas nem sabes se grito por socorro
ou se te mostro só que me inebrias
Amiga amor amante amada eu morro
da vida que me dás todos os dias
David Mourão-Ferreira
1º sinal do tempo - pitosguice!

Assim, sem apelo nem agravo, fez-me ver que estava perante um sinal inevitável da passagem do tempo: a tal "falta de vista".Era o primeiro sinal!
Desde então os óculos passaram a ser um objecto omnipresente: sem eles o mundo à volta fica desfocado e turvo, sem eles não leio, não escrevo, não como, não faço compras...
No entanto, não me posso queixar, porque ainda não padeço de mais faltas, pelo menos até que um médico me diga, diplomata como o outro:"Com a sua idade, é de admirar como não ficou patareca antes!". Quando esse momento chegar, espero que já tenham inventado uns óculos ...para a mente!
quarta-feira, junho 14, 2006
Ummmmm!
Dois terços que valem pelo todo
Conheci o Sr. Celestino Gouveia no ano passado, quando visitava o Centro Intergeracional da Santa Casa da Misericórdia de Machico. Vi-o ocupadissimo a completar uma maquete do edifício, com iluminação. Disse-me o Terapeuta Ocupacional que ele era dos mais activos e, quando não podia fazer alguma das tarefas em que se envolvia, orientava os que estavam ao pé de si, de modo que a obra ficava sempre feita e bem feita.
O Sr. Celestino não tem pernas nem mãos.
Este ano foi convidado a integrar o elenco de bailarinos do grupo Dançando com a Diferença que constitui o primeiro grupo de Dança Inclusiva em Portugal, orientado por Henrique Amoedo.
Subiu ao palco com a sua cadeira motorizada e deu expressão à coreografia " 1 Apaixonado" de Henrique Rodovalho, director artístico da "Quasar Companhia de Dança" de Goiânia, Brasil. Pela proximidade do Mundial, tinha sido sugerido o tema do desporto mas, na coreografia, o espectador vê desenrolar-se dentro das quatro linhas as fintas da sua própria vida.
Não posso prever o resultado do Mundial, mas aqui entre nós, no jogo da vida, o Sr. Celestino já ganhou!
( alguns destes dados colhidos em "Rugas", publicação mensal)
terça-feira, junho 13, 2006
Parabéns ao Poeta!
Fernando Pessoa
(Álvaro de Campos)
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu era feliz e ninguém estava morto.
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,
E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer.
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma,
De ser inteligente para entre a família,
E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim.
Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças.
Quando vim a olhar para a vida, perdera o sentido da vida.
Sim, o que fui de suposto a mim-mesmo,
O que fui de coração e parentesco.
O que fui de serões de meia-província,
O que fui de amarem-me e eu ser menino,
O que fui — ai, meu Deus!, o que só hoje sei que fui...
A que distância!...
(Nem o acho...)
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!
O que eu sou hoje é como a humidade no corredor do fim da casa,
Pondo grelado nas paredes...
O que eu sou hoje (e a casa dos que me amaram treme através das minhas
lágrimas),
O que eu sou hoje é terem vendido a casa,
É terem morrido todos,
É estar eu sobrevivente a mim-mesmo como um fósforo frio...
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...
Que meu amor, como uma pessoa, esse tempo!
Desejo físico da alma de se encontrar ali outra vez,
Por uma viagem metafísica e carnal,
Com uma dualidade de eu para mim...
Comer o passado como pão de fome, sem tempo de manteiga nos dentes!
Vejo tudo outra vez com uma nitidez que me cega para o que há aqui...
A mesa posta com mais lugares, com melhores desenhos na loiça, com mais copos,
O aparador com muitas coisas — doces, frutas o resto na sombra debaixo do alçado —,
As tias velhas, os primos diferentes, e tudo era por minha causa,
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...
Pára, meu coração!
Não penses! Deixa o pensar na cabeça!
Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus!
Hoje já não faço anos.
Duro.
Somam-se-me dias.
Serei velho quando o for.
Mais nada.
Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira!...
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!...
Santo António sem Menino

segunda-feira, junho 12, 2006
Transplante e novas raízes

Fiz reportagem fotográfica e, ao arquivar no computador, veio-me à ideia... o meu próprio "transplante" cá para a Madeira, há quase trinta e três anos! Encontrei semelhanças curiosas: com igual cuidado também me aconchegaram as raízes para que não estranhasse, cortaram as folhas secas para não causarem excesso de peso; criei novas raízes e adaptei-me ao local, dei frutos e passei a fazer parte da nova paisagem...
Lembrei os primeiros "aconchegos": da Senhora Dra Helena Pita da Silva, no Liceu, a falar-me das filhas da minha idade e a convidar-me para ir a um convívio a sua casa conhecer um grupo grande de colegas de profissão, para "enturmar"..., da Dra Margarida Morna, que arranjou maneira de ajudar a mobilar o meu apartamento quase vazio frente ao Liceu, para eu ter um "lar"... a Lídia e os Pais, depois tornados também meus, que me deram a conhecer a Madeira de lés a lés e o Porto Santo, para eu não me sentir em terra desconhecida...
É por tudo isso que oiço muitas vezes as pessoas dizer-me: "Já é da Madeira!" . Não, Amigos, não sou planta endémica desta região, sou um "transplante", nasci noutro local distante daqui e do qual gosto muito, mas lá que fui bem aconchegada e as novas raízes são firmes , isso é verdade!
domingo, junho 11, 2006
Céu iluminado
sábado, junho 10, 2006
Coerência

PRÉMIO CAMÕES
Luandino Vieira recusa galardão
O escritor angolano Luandino Vieira, Prémio Camões 2006, recusou aceitar o galardão, no valor de cem mil euros, invocando «razões pessoais».
" Atingindo o pináculo da fama com nem sequer uma escassa dúzia de títulos, Luandino (...) sentiu que a sua escrita simultaneamente lhe trouxera a notoriedade e lhe retirara o gosto dela.É próprio das grandes almas poderem agarrar e não agarrarem. Poderem fruir e não fruirem. Enquanto alguns bebem até às fezes a taça da glória - e nada lhes satisfaz nunca o apetite -, há outros, batidos em metal diferente, que desertam o próprio terreno em que lhes oferecem as buzinas do triunfo. (...) Explorador e acrescentador da língua, atraente contador de histórias e solidário cidadão sem ênfase nem retórica,(...) Luandino renovou com desenvoltura a literatura de língua portuguesa e, depois de alguns anos de regressado a Angola, optou por um "imenso retiro" lá para o norte de Portugal.(...) José Luandino Vieira continua a não estimar a gló-glória e prefere decididamente o silêncio, no vero momento em que lhe conferem o mais alto e ruidoso galardão literário que o levará por certo a ir esconder-se no mais fundo fundo da sua toca onde o não-ruído lhe soa bem."
in Eugénio Lisboa, Um retiro exemplar
JL, nº 930, p.4
sexta-feira, junho 09, 2006
Four-footed friends
Amizade entre diferentes
quinta-feira, junho 08, 2006
60 anos. Idosa ? Não! Mas, Senhora Ministra...

Foto: minha
Notícia no DN-Madeira:
"Idosa sofre queda em escadarias - Uma idosa teve de receber assistência médica no HCF, na sequência de uma queda sofrida ontem numas escadas junto a um banco, na rua ... em ..... Em virtude da queda, a vítima, de 60 anos, sofreu um corte no couro cabeludo e algumas escoriações pelo corpo. A sexagenária foi assistida no local pela corporação de ..... que a transportou ao hospital....". Já foram publicadas notícias destas e utilizando estes "epítetos", vezes sem conta. Por isso, amigas minhas, ao completar 60 anos, costumam dizer, meio a rir, meio a sério, "a partir de agora já sei que, se for atropelada, vou ser referida como "idosa" na notícia."
Senhora Ministra da Educação: A Senhora, que é tão cheia de certezas e iluminada, diga a estes jornalistas que nós agora, as próximas "sexagenárias ou idosas de 60 anos " só nos iremos reformar lá para os 65, ou até só aos 70 como a Senhora deseja para si própria, e que parem, por isso, de nos atribuir tais classificações desprimorosas. A Senhora gostaria de, sendo atropelada aos 60 anos, ainda por cima ser tratada por "idosa" ? Claro que não!
A verdade é esta: as minhas amigas que já estão para lá da fasquia dos 60, aposentadas antes da moderna era socrática, não pararam em nada: estão cheias de vigor e iniciativa, fazem voluntariado em associações de solidariedade social, continuam a dinamizar actividades no seu local de trabalho anterior, estão envolvidas nas suas paróquias, preparam refeições, passeios, actividades lúdicas e culturais para dúzias de pessoas, familiares ou não, voltaram às línguas estrangeiras, info-incluiram-se, fazem ginástica, andam horas a pé, lêem que se fartam, viajam por esse mundo fora, inscreveram-se em variados hobbies para os quais antes não tinham tempo...
Mas, Senhora Ministra da Educação, nenhuma delas está triste por ter passado à aposentação. Acham que deram o seu contributo à nobre missão durante tempo suficiente e agora querem finalmente poder gerir o seu tempo e seguir a sua vontade ( a delas, claro!). Porque é que a Senhora não me vai deixar, daqui a três anos, fazer o mesmo, é para mim um mistério...
quarta-feira, junho 07, 2006
Barata madeirense

Perante a minha total incapacidade para controlar o medo inicial , o N. foi promovido à categoria de exterminador-mor, chamado ao combate cada vez que um daqueles insectos castanhos e muitas vezes alados se interpunha no meu caminho. Nasceu a Catarina e eu...mãe inexperiente e pouco informada, transmiti-lhe o medo das baratas. Passámos a ser duas vozes a gritar pelo pai-salvador-exterminador-de-baratas!
Quando ela tinha quatro anos, o pai teve de ir para Lisboa estudar. Altos Estudos. Lá se foi o nosso exterminador! "E agora, mãe? Como é que vamos fazer com as baratas?". Só aí me dei conta do estrago que o meu medo tinha feito. Ainda estaria a tempo de o remediar? Enchi-me de coragem! "Olha, nós as duas vamos resolver isso: uma pega no sapato e a outra vai buscar a vassoura! E enfrentamos as baratas todas que aparecerem!" A partir desse dia nunca mais tive medo de baratas! Acho que venci o medo para poder ajudar a minha filha a vencer o dela. Mas...há asneiras que uma mãe faz que não se conseguem remediar mais tarde... Aos 25 anos, detentora de diploma superior , determinada, independente e casadoira, ela ainda acordava de noite a dizer: "Pai! Está uma barata no cortinado do meu quarto!" . E o pai lá ia tratar da saúde da barata...
Agora que ela é mãe, informada e muito sabedora de psicologias, sempre quero ver se vai , como eu, enfrentar as baratas para o Martim não ficar com medo delas...
domingo, junho 04, 2006
GRANDE ESCALA
Alexander CalderSem Título
1968
Quando a escala é grande os horizontes têm de ser largos...
Quando a escala é grande o pensamento não pode ser pequeno...
Quando a escala é grande há qualquer coisa que se altera no nosso olhar...
Pintura e Escultura na Colecção Berardo
Centro das Artes Casa das Mudas
Calheta - Madeira
sábado, junho 03, 2006
Meus Pais com o Tin Tin
sexta-feira, junho 02, 2006
A nossa Rita


Rita, Rio de Janeiro, 28 de Abril de 2006
“Minha Vida!!!
Porque o melhor dos mundos é o mundo dos afectos. Porque o verdadeiro milagre de Deus é simples: quanto mais partilhamos mais temos. A simplicidade de um sorriso vence dores e silêncios magoados. Quanto mais damos mais recebemos, compreendo agora que aqui não ensino, aprendo. Aprendemos na simplicidade, na generosidade, na luz de quem acredita que a
alegria é possível... mesmo nos rostos mais fechados de crianças que sabem que sonhar é provavelmente só para os outros. Crianças feridas não só por fora, mas por dentro. Morro e vivo aqui todos os dias, cada dia, num tempo que se multiplica infinitamente. Sou daqui. Sou feliz aqui... mesmo quando vejo queimaduras nas mãos da minha Ingrid ou buracos fundos de pregos nas pernas da minha Hevi, sou feliz de lágrimas nos olhos, acreditando que cada dia posso fazer nascer um sorriso novo, de esperança, de quem acredita que a alma sempre pode ser descoberta numa espécie de milagre... Deus é ainda mais evidente quando precisam de nós. Um abraço apertado,
Vossa Rita!”
leitura e leitores
Saramago questiona estímulo à leitura
O prémio Nobel da Literatura José Saramago questionou quarta-feira a utilidade de o Estado dar «estímulos» à leitura, afirmando que «voluntarismos» não valem a pena numa área que «sempre foi e será coisa de uma minoria».
Num debate na Biblioteca Municipal de Oeiras, Saramago afirmou não saber «o que vai ser» o Plano Nacional de Leitura arquitectado pelo governo, referindo apenas que «há dinheiro para gastar», mas resta «esperar para ver que resultados vai ter».
«Não vale a pena o voluntarismo, é inútil, ler sempre foi e sempre será coisa de uma minoria. Não vamos exigir a todo o mundo a paixão pela leitura», afirmou, caracterizando o facto de pertencer à comissão de honra do plano como «uma fatalidade, como as bexigas», decorrente do seu estatuto como vencedor do prémio Nobel.
«O estímulo à leitura é uma coisa estranha, não deveria ter que haver outro estímulo além da necessidade de um instrumento que permita conhecer», opinou.
«Mal vão as coisas quando é preciso estimular», defendeu, contrapondo que «ninguém precisa de estímulos para se entusiasmar com o futebol», que tem por trás uma «operação de propaganda fabulosa».
O escritor afirmou que actualmente se vive «uma situação confusa», em que se confunde a «instrução», ligada ao conhecimento, com a «educação», ligada aos valores.
«Onde está a educação na escola em que os professores são agredidos, humilhados, desprezados», questionou, argumentando que os docentes «são os heróis do nosso tempo».
Saramago ressalvou que há «professores incompetentes», que trabalham «sem vocação», e que hábitos como «ler em voz alta» nas aulas deveriam ser encorajados.
O Nobel da literatura criticou os argumentos segundo os quais a correcção na ortografia não é importante, lembrando que «qualquer operário sabe que tem que ter as suas ferramentas limpas e em condições de serem usadas» e que «a língua é a ferramenta por excelência».
quinta-feira, junho 01, 2006
Dia da Criança

Com o sorriso da mais linda , que ilumina as nossas vidas!
Beijinhos, muitos, muitos, ao Martim e a todos os outros milhões de meninas e meninos, por esse Mundo fora!




















